Riacho Doce

Esperei poder banhar-me sem que me apanhassem nua.
Esperei poder matar a sede com as mãos em concha.
Esperei saber aonde vão as águas deste riacho sem me molhar.

De todas as minhas viagens ao riacho doce nunca olhei o meu reflexo.
De todas as minhas viagens ao riacho doce nunca esperei ser olhada.
De todas as minhas viagens ao riacho doce nunca encontrei ninguém.

De tantas vezes entrar na água fria o corpo deixa de gelar.
O frio que vive dentro faz doer menos de cada vez.

De todas as minhas viagens ao riacho doce nunca confiei nos peixes que se enroscam à voltas dos meus tornozelos. De todas as minhas viagens ao riacho doce nunca pensei que as pedras do charco me deixassem sem pé. De todas as minhas viagens ao riacho doce sempre acreditei que os meus pés descalços sabiam o caminho de volta a casa.

De todas as minhas viagens ao riacho doce nunca pensei que o sol de fim de tarde me cegasse. De todas as minhas viagens ao riacho doce nunca esperei que te fosse ver sair da água onde eu estava mergulhada. De todas as minhas viagens ao riacho doce nunca esperei que a roupa se colasse ao meu corpo e deixasse que visses por mim.

De todas as minhas viagens ao riacho doce nunca pensei que me escorregasses das mãos.
Saíste da água doce em direcção ao mar. E disseste-me para nunca dizer nunca sem acreditar.
Fiquei à espera de ver a maré mudar…

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